Comunidade dos Amantes da Literatura
Edir tornou-se nosso compadre de maneira inusitada.
Uma noite, sem aviso, bateu à porta, entrou na sala, onde eu estava amamentando o meu filho recém nascido, aproximou-se de mim, dirigiu-se ao meu marido, seu colega de trabalho e disse: "Vou ser padrinho desse meninão e farei com ele, tudo que sonhei para um filho que não tive.”
Assustada, olhei para Hipólito, que já estava respondendo: “Ficaremos satisfeitos com a escolha”.
Durante toda a infância do meu caçula, seu padrinho chegava das viagens constantes, com enormes sacolas de presentes, brincavam e depois, saiam de mãos dadas para circos, parques ou lanchonetes.
Edir era um bailarino perfeito e um sedutor inveterado. Imagino que bom marido não foi, já que estava sempre só, e criticando a mulher.
Toda vez que nos encontrávamos ele me abraçava apertado e dizia: “minha comadre cada dia mais bonita.” E eu gostava disso.
Com o passar do tempo virei sua confidente e conivente com suas aventuras. Quando tinha um novo caso de paixão vinha conversar comigo e afirmava: “Agora eu me separo da Marisa. Até já lhe avisei.”
Quando, ocasionalmente encontrava com a mulher, ouvia suas reclamações e as lutas com as amantes dele.
Passamos alguns anos sem ver Edir. Até que, separada do meu marido, vim morar no Rio, e vi meu compadre na praia. Nos abraçamos e, ele galante como sempre, disse: “você cada dia mais linda! ”
Sentamos para conversar. Ele me pareceu velho e cansado. No lugar daquele homem que vivia alegre contando histórias engraçadas, agora uma pessoa desiludida e triste.
“Comadre”, meu karma deve ser morrer ao lado da Marisa.
Três vezes estive apaixonado a ponto de sair de casa.
Interessante, as três mulheres eram cearenses.”
Achei interessante aquela coincidência. Edir continuou:
“A primeira vez que me apaixonei de verdade foi por sua prima Luisa.
Quando vinha ao Rio, nos fins de semana ver a família, saía com ela e só voltava para buscar a mala e viajar.
Aquela mulher quase me matou de paixão.
Um dia, para ficar mais tempo ao seu lado, consegui chegar aqui no meio da semana, corri para o nosso ninho de amor e lá estava a mulher com o Carlos Alberto, aquele artista de novela.
Foi com se tivesse levado um tiro no peito”
Achei graça naquela história do tal ator de novela, corneando meu compadre.
“Tempos depois conheci Emilia, sua amiga de infância.
Foi amor à primeira vista.
Nossos corpos e mentes tinham uma sintonia perfeita e juntos vivemos os melhores momentos da minha vida.
Numa tarde azarada, parei meu carro no sinal e lá estava minha esposa gritando, tentava bater na cara de Emília.
Um verdadeiro barraco!
Dessa batalha saímos todos machucados.
Antes de viajar para a França, á serviço, deixei tudo meu arrumado e disse a Marisa que não voltaria para casa.
Ficou com Emilia a responsabilidade de alugar um apartamento para morarmos juntos.
E com prazer procurei nas famosas casas de decoração objetos para nossa casa!
Quando voltei fui direto para o apartamento de Emília. Fui recebido por sua irmã que, friamente, comunicou: “Ela não está mais aqui conosco; morreu num acidente de carro na estrada Rio- Petrópolis.”
Fiquei paralisado.
Mas não posso deixar de concluir que sou azarado no amor”, concluiu.
“ Da terceira paixão cearense, conversaremos outro dia.”
E sempre pisando forte e de cabeça erguida despediu-se de mim.
Nunca mais nos vimos.
Tempos depois soube que ele morrera assistindo um filme na televisão com Marisa; enfarte fulminante.
Jamais saberei quem foi a terceira cearense por quem ele estava apaixonado, embora no enterro, Rui, um amigo comum, tenha me dito que Edir lhe confessou ter uma paixão eterna, nunca confessada, por uma cearense.
Seria por mim?
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