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Margarida Studart

APAGÃO Ao entardecer de uma segunda feira desci para alugar um disco, e qual não foi a minha surpr…

APAGÃO


Ao entardecer de uma segunda feira desci para alugar um disco, e qual não foi a minha surpresa ao encontrar a rua cheia de gente alegre, sentada no chão, em batentes das lojas ou em mesas defronte aos shoppings, lanchonetes e sorveterias.
Fogos explodiam, artistas e cantores de rua estavam com suas cestinhas cheias de gorjetas.
O que estariam festejando? Seria um torcedor vibrando pelo seu time de futebol? Os traficantes avisando que as drogas chegaram? ou o descanso inesperado dos empregados de lojas, lanchonetes e restaurantes?
Só tinha certeza de que toda aquela alegria não vinha dos donos de negócios da redondeza, pois sem energia as lojas fecharam, os salões de beleza não funcionavam e os apartamentos estavam quentes e desconfortáveis.

Chequei até a sorveteria Itálica, onde um sanfoneiro tocava “Asa Branca” enquanto uma fila enorme esperava para tomar sorvete. Mas como, se fazer sorvetes também precisa de energia?
Entrei na fila, comprei uma casquinha diet e sentei no batente da sorveteria com o Guto, seguro pela coleira.
Desde meu tempo de moleca, na rua Major Facundo, no Ceará, não sentava num batente de rua.
O menino que já estava ali, pegou no Guto. Avisei: “ele estranha”.
Outra surpresa: Guto não só recebeu os afagos do menino, como provou do seu sorvete, enquanto eu conversava com sua avó , como se fôssemos intimas.

Voltando para casa, sentei-me ao lado da mais velha moradora do meu prédio, Dona Neuza, uma pessoa doente e delirante. Fiquei ali ouvindo sua conversa repetitiva e sem nexo. Dizia, entre outras coisas, que estava esperando pelo marido, embora não se lembrasse do dia em que ele viajara e nem quando voltaria. E repetia sempre: “eu e minha mãe, aquela santa mulher, detestamos o escuro.”
O filho chegou e disse: “mamãe o que você esta fazendo aqui? Vá esperar o papai em casa que eu vou sair.” Para minha surpresa, desta vez ela estava falando a verdade.
Argumentei que ela estaria mais segura na portaria onde todos lhes fariam companhia até a volta do marido.

O moço não concordou e fez a mãe subir, pela escada escura, quatro andares.

Sozinha, fiquei sentada no banco, olhando as pessoas que passavam. Levei um susto : andando, tranquilamente, pela calçada, de braços com a filha, veja Elsa, amiga de longa data, que imaginava morta.
Há quase dez anos, quando voltei para Brasília, deixei-a aqui, em fase terminal de um câncer. E sempre pensei que há muito ela tivesse partido dessa vida para outra.
Saí correndo pelo portão, chamando seu nome. Ela parou.
Mais velha, dentadura e muitas rugas, ali na minha frente, falando de maneira irônica como sempre, estava minha querida amiga.

Nos abraçamos emocionadas e felizes e, ante meu espanto, ela disse:
-Escapei do câncer mas meu marido diz que estou louca e proibiu-me de freqüentar o Centro Espírita. Toda terça - feira leva-me ao psiquiatra da aeronáutica e diz que o remédio está fraco.
-E por que você mesma não diz o que sente e pensa.
-Ora, o médico é capitão e ele e brigadeiro. É a segunda tentativa dele me internar.
- Você já foi internada? - perguntei, assustada.
- Na outra encarnação - respondeu convicta. Mas o meu guia disse que agora meus filhos me defenderão. O Preto Velho disse que eu fosse beber cachaça no boteco da esquina, que tudo passaria. Mas Julio não deixa e me faz beber comprimidos cada vez mais fortes que me fazem ver bichos enormes e ferozes na minha frente.
Depois, com os olhos cheios de lágrimas, garantiu que eu lhe ajudei na época em que Julio quis separar-se dela.

Não lembro disso. Mas sei que ela tomava pileques homéricos.
.
A filha, pela primeira vez, se manifestou:
- Mãe, eu estou preocupada com o trabalho que tenho de fazer para entregar amanhã, ao meu chefe.

Elsa pediu meu telefone, mas não me deixou o dela.

Doida ou médium?

Subi três lances de escadas escuras. Entrei em casa cheia de fome, procurando a sopa que a empregada fez. Estava horrível. Parecia um angu insosso. Tentando melhorar seu gosto, coloquei sal, queijo e pimenta. Percebi, então, que não havia velas nem lanterna em casa. Risquei uma caixa de palitos de fósforos até conseguir acender o fogo. Depois de quente, enguli rápido, para forrar o estômago.

Tive a brilhante idéia de ir para o laptop que não precisa de eletricidade e ainda me daria um pouco de sua claridade. Não funcionou. Ele estava sem carga elétrica.

Voltei para a escuridão, acendi mais fósforos, tomei um calmante e, no calor terrível, procurei dormir. Virei para um lado e outro, tentando achar uma posição cômoda. Usei de todas as técnicas conhecidas: contei carneirinhos, observei minha respiração, virei na cama, ficando com a cabeça no lugar em que deveria estar os pés; enfim apaguei.

Nem sei quanto tempo dormi. Sei apenas que luzes se acenderam em toda a casa. Parecia que o apartamento estava incendiando. Levantei-me, apaguei as luzes e novamente fui em busca dos braços de Morfeu.

O incômodo e absurdo APAGÃO acabou nos trazendo um divertido fim tarde, cheio de emoções.

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Margarida Studart Comentário de Margarida Studart em 4 dezembro 2009 às 14:12
Sumi algum tempo por problemas técnicos
Beijos

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