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CARNAVAL

Há horas estava sentada defronte da TV, vendo os blocos de carnaval com suas mulatas de corpos perfeitos e lindas pinturas cobrindo sua nudez, ou gordas sambistas com fantasias coloridas, balançando-se como se fossem de molas, acompanhadas de parceiros talentosos.

Troquei várias vezes de canal e sempre meus olhos viam as mesmas cenas.

Finalmente encontrei um bloco cheio de pessoas segurando sombrinhas enquanto dançavam frevo. Saí daquela apatia e senti vida, recordações e saudade de outros carnavais.

Lembrei da minha infância e de cada fantasia que usei. Da vaidade que sentia quando colocava a mais bonita e mais rica do grupo.

Quando adolescente, foi vestida de odalisca que encontrei um pirata e dele recebi o meu primeiro beijo na boca. Tinha um dos lindos olhos azuis, e eu cobria o nariz e a boca com um véu. A minha cintura deveria estar descoberta, mas depois de muitas considerações, me deixaram usar uma malha que fingia ser a pele descoberta. Meu pirata tinha um lenço onde colocava lança perfume para cheirar e depois, cobria o que estava exposto do meu corpo com aquele líquido gelado.

Nessa época eu era uma foliona entusiasmada. Brincava o carnaval à tarde e à noite.

E foi dançando á noite sobre uma mesa, que conheci o homem com quem vim a casar. Ele estava bêbado e eu tomei um pileque de coca - cola.

Segundo meu irmão, só na primeira dose de cuba- libre ele colocou rum. E sempre lembra, rindo, esse fato.

Voltei ao presente; afinal de contas ainda sou jovem para viver no passado. Isso é coisa de velho...

Ainda a tempo de ver a entrada dos gays, no baile do Scalla que fica defronte o meu prédio. É uma pequena participação, mas diverte.

Sentei no banco, ao lado de uma vizinha, e começamos a observar e fazer comentários a respeito de todos que passavam pela calçada.

Alguns foliões passeavam pela calçada com as costas nuas mostrando nádegas e seios enormes. Exageraram no silicone. Outros magros e nervosos, cheios de plumas e paetês.

Espantou-me o fato de que os homens que disputavam a platéia gritassem tantos insultos e os gays fizessem sinais de agradecimentos.

Se os machos os achavam ridículos porque saíram do conforto de suas casas e estavam ali, sem conforto, a esperá-los?

E os gays, por que agradeciam? Para mostrar que são superiores? Serão ambos doentes?

Levantei do banco e fui para o meio da multidão. Acabei encontrando um lugar, relativamente confortável, à frente de um homem alto, muito claro que me pareceu estrangeiro.

Ele, ágil e incansável, gravava tudo em sua filmadora.

De repente senti algo duro encostado na minha bunda parcimoniosa, até um pouco murcha.

“Não pode ser; estou delirando”. Mesmo assim, afastei-me.

O homem deu um passo à frente. E, novamente senti o pau duro.

Afastei-me outra vez e olhei zangada, para o rapaz que fingia apenas registrar os gays e o carnaval carioca.

Ele tornou atrás de mim de pau duro.

Desisti e saí pensando: “quantas vezes esse rapaz ficará de pau duro e gozará, vendo esse filme de enormes bundas e peitos gays?”

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