No Ceará, onde vivi minha infância, usava-se como medida de muito grande, “tamanho de um bonde”. E, saudade muito grande era “banzo”.
Recentemente, aos domingos venho sentindo um banzo tamanho de um bonde.
Não sei explicar de quê nem de quem.
Até quando meus domingos serão solitários e melancólicos?
Penso na manhã de um domingo ensolarado em que, na rua da Cachorra Magra (hoje, Marechal Deodoro da Fonseca), cheguei ao planeta terra. Terá sido triste a minha chegada?
Na minha infância, nas de tardes de domingo ao voltava da fazenda deixando meus amigos de molecagens sentiria saudade?
Aquela manhã de domingo, em que voltei da missa e encontrei minha mãe morta, foi desolador. Muita tristeza e uma revolução na minha vida.
Quando estava interna no colégio, algumas meninas aguardavam o domingo com alegre expectativa, pois seus parentes iriam visitá-las. Eu ficava no pátio, sozinha, olhando a cidade distante de onde ninguém viria curar o meu “banzo”.
Num domingo, acordei num quarto quente cheio de morcegos dependurados nos portais e eu, agora, era uma mulher.
Pela primeira vez senti a solidão a dois. Tudo fora diferente do que sonhei. O lugar feio, o corpo doído e o coração melancólico.
Durante anos, enquanto meu marido saía com as crianças para teatros, cinemas ou parques, eu preferia ficar sozinha, lendo ou dentro de uma banheira com água morna.
Percebi que não adiantava ficar acompanhada aos domingos, pois me sentia sozinha, triste e ausente.
Um dia de domingo, fui conhecer João Pessoa e, no Cabo Branco, parte em que o Brasil fica mais próximo da África, chorei e me senti tentada a cair no mar em busca de alguém que partira ou ficara do outro lado do oceano.
Era como se fosse meu o “banzo” dos escravos que foram arrancados de suas terras para servir homens brancos e maus.
Agora, nesse domingo solitário, choro lágrimas do tamanho de um bonde e com um “banzo” do tamanho daquele sentido pelos negros africanos.
Mas, o pior é que existem domingos bem mais trágicos, onde o sofrimento atinge limites quase inacreditáveis.
Duvidam?
Liguem a televisão...
Tags:
Compartilhar
Facebook
Você precisa ser um membro de Virtual Book para adicionar comentários!
Entrar em Virtual Book