Comunidade dos Amantes da Literatura
De todas as candidatas que responderam ao anúncio, a que mais me agradou foi Alfredina. Limpa, cabelos presos, roupa sóbria, de poucas palavras, mas sempre delicada com as crianças.
Tudo que eu lhe ensinava, executava melhor do que eu.
Finalmente tinha encontrado a doméstica dos meus sonhos.
Algum tempo depois seu corpo aumentou e a barriga cresceu. Sugeri que ela estava grávida. Negou energicamente e não pensei mais nisso.
Um dia estávamos almoçando e, contra seus hábitos, ela desaparecia de vez em quando.
Perguntei-lhe se estava doente.
“Dor de cabeça”, respondeu.
Meu marido voltou para o trabalho, as crianças foram para suas aulas e eu me deitei para um sesta, como sempre fazia.
Fui despertada por Alfredina à porta do meu quarto, pálida e trêmula, pediu-me para acompanhá-la até o seu banheiro. Depois, sem dizer nada, se trancou no quarto.
Dentro do vaso havia algo que levei alguns segundos para distinguir.
Depois, com nojo mas, decidida tirei uma coisa parecida com um fígado e cheio de sulcos como um cérebro, preso a um bebê grande e forte, mexendo os braços e as perninhas.
Era assustador. Meu coração bateu forte e, com as mãos tremendo, tirei tudo e inverti a posição, deitando o bebê sobre a placenta, no chão da área de serviço. Em seguida, gritei por Alfredina; ela abriu a porta, sentou-se na cama, e de cabeça baixa e envergonhada não disse nada.
Nervosa, sem saber como agir, saí pelo edifício à procura de um médico.
Vi um carro parar no estacionamento do prédio e um jovem de branco descer. Fui até ele e perguntei:
- Você é médico?
- Não, sou estudante.
- Serve.
E subi com o rapaz que, mesmo sem compreender nada, seguiu-me.
Ao entrarmos ele me pediu uma tesoura, cortou o cordão umbilical e colocou a placenta em folhas de jornais. Depois enrolou o menino num lençol, chamou a mãe e disse: “pegue seu filho, leve para o hospital e entregue isso também”
Durante todo o percurso que fizemos até o hospital mais próximo, ela não disse nada e eu, dirigindo, com aquele odor de sangue, perplexa, procurava compreender o quê e por quê, aquilo tudo aconteceu.
Quando tive meus filhos estava num hospital tento ao meu lado médico enfermeira e um marido. Crianças que foram recebidas enrolados em mantas bordadas por mim e vestidas com roupas compradas nas melhores lojas de roupas infantis. No corredor, minhas irmãs e amigas mais chegadas os aguardavam felizes.
E por quê, meu Deus, essa criança foi espirrada dentro da privada como fezes?
No dia seguinte Alfredina voltou, dizendo que o filho tinha morrido e ela precisava do emprego de volta.
Paguei seus dias de trabalho e mandei-a embora.
E durante dias ficou o cheiro forte dentro do meu carro e a marca daquelas cenas.
O tempo passou e essas lembranças, essas interrogações, já não me incomodavam e estavam quase esquecidas.
Procurei um curso de Atualização da Mulher e voltei a estudar. Tinha minha atenção voltada especialmente para as aulas de sociologia e jamais perdia uma aula. O professor era também advogado e deputado.
Ninguém, na minha opinião, era mais culto, o mais, sábio e ensinava sociologia como ele.
Naquela tarde de quarta- feira, ele estava discorrendo sobre julgamentos.
“Ao julgarmos a pessoa, precisamos saber onde nasceu, como é sua cultura, quais os hábitos do seu povo, a situação em que vive, os seus valores, sua saúde mental e física.”
E prosseguiu:
“Vocês vão refletir sobre um caso, vivido por meu filho, quando ainda era estudante de medicina.”
Estava chegando da Faculdade, por volta de seis horas da tarde, ele encontrou uma senhora muito aflita que o arrastou para seu apartamento, no prédio ao lado e lhe mostrou uma criança recém nascida, deitada no chão sobre a placenta. Sua empregada tinha parido, sentada no vaso do banheiro.
Vejamos o que pode ter levado essa mulher a fazer isso: medo de ser despedida se confessasse que estava grávida?; a certeza de que sua família a expulsaria de casa?; depressão puerperal?; preocupação por saber que seu o filho poderia passar fome?; pânico de tudo e de todos?; maldade? ; não teria ela instinto materno que até os animais têm?”
Não resisti e perguntei:
- Onde seu filho estava quando socorreu essa senhora?
- Em Brasília – e disse o endereço.
Aí então as minhas dúvidas desapareceram.
- Sou aquela mulher que levou seu filho até o apartamento onde isso tudo ocorreu.
- E como você a julgou?
Você conhecia as razões dela?
Fiquei em silêncio.
Ele insistiu: -você daria outra chance a essa mulher?
- Eu era muito jovem e fiquei assustada. Não procurei conhecer sua vida, seus sentimentos, os motivos que a levaram a agir daquela maneira.
Mas quem sou eu para julgá-la?
Meu professor não satisfeito com minha resposta insistiu
- Hoje você a deixaria trabalhar na sua casa?
Esperei alguns segundos , antes de responder.
- Desculpe, Professor, qualquer que fossem os motivos dela, sempre irei preferir tê-la bem longe de mim.
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