RETORNO
Acordei com o barulho de martelos, serras e misturadores de cimento.
Olhei pela janela e, admirada, vi que estava emparedada por enormes edifícios prontos, ou em construção.
Fui até a janela, tentei ver o mar e ouvir o barulho das ondas.
Consegui enxergar apenas uma nesga do verde espumante; com insistência ouvi, longe, o barulho das ondas valentes, indo e vindo até a praia.
Cada vez que volto à minha terra ela está mais distante, mais diferente daquela em que vivi minha infância e adolescência.
Fui até a varanda, sentei e fiquei ali com saudade de tudo que ficara para trás.
Lembrei-me do que disse Manuel Bandeira ao retornar ao lugar onde nascera e vivera e seus antigos companheiros orgulhosos lhes mostravam toda a sua modernidade e fiz minha as palavras do poeta:
“Diabo leve quem mudou a minha terra”.
Todos ainda dormiam e, em silêncio, vesti roupas adequadas, untei meu corpo com filtro solar e coloquei na cabeça um chapéu de abas largas.
Saí de mansinho.
O sol estava fraco, mas as ondas fortes batiam nas enormes pedras que os homens colocaram para evitar que nas marés altas invadam as ruas, e o vento acariciando meu corpo tentava tirar o chapéu da minha cabeça.
Tive então a certeza de que nem tudo se perdera.
Olhei em volta de mim, apreciei os lindos edifícios e caminhei pela Beira Mar enquanto observava os vendedores de cocos, de camarões e peixes fritos.
Vi uma placa: “Parque Japonês”.
“O Japão no Ceará”.
Fiquei parada olhando os jovens cearenses aprender as artes marciais, com um asiático de olhos puxados, maçãs do rosto proeminentes, capelos lisos e negros.
Do outro lado da calçada vi um restaurante chamado King Kong; atravessei a rua para ler o cardápio com preços colados na porta.
Logo vejo a escultura bem cearense de Martins Soares Moreno, o português que colonizou Fortaleza e conquistou o coração da índia Tabajara.
Dizem que teriam vivido um grande amor.
Cheguei até a colônia dos pescadores, e tentei entrar na antiga igrejinha de S. Pedro, protetor daqueles homens do mar.
Estava fechada. Fora, no terreno ao lado, havia uma grande escultura de um homem forte, de pele morena e uma pequena placa que colocada durante o governo de Ciro Gomes, para homenagear o valente pescador apelidado de Dragão do Mar. Ele é o herói dos pescadores e cheios de orgulho contam suas proezas: “ele saiu numa pequena jangada a fim de encontrar o então Presidente da República e reivindicar nossos direitos.”
Na volta para casa entrei numa agência de turismo, comprei um pacote e saí a conhecer mais essa grande cidade em que se transformara o meu Ceará.
No primeiro passeio que fiz sentei-me ao lado de uma inglesa de idade indefinida. Corpo de criança e rosto vincado de rugas.
Ao chegarmos ao hotel em Tinhanguá, ela me perguntou:
- Onde é a casa de banho?
- Você quer fazer xixi? Perguntei.
- Aqui se chama casa de fazer xixi?
Um pedaço de mim teve vontade de responder:
-Sim.
Mas a metade, hospitaleira e cristã disse:
Aqui não se diz casa de banho nem de xixi, mas banheiro ou toalete.
Conversamos durante toda a viagem rumo à gruta de Ubajara.
Soube que era professora em Angola, onde aprendera a falar português de Portugal e que desde que tinha conhecido uma cearense teve vontade de conhecer essa cidade.
Trocamos confidências, fotos e telefones.
Nunca mais nos falamos.
Fiz outras viagens, conheci outros lugares e outras pessoas.
Cheguei a Jeriquaquara descadeirada, depois de subir e descer dunas em um desconfortável jipe.
À noite saí com amigos pelas escuras ruelas, pisando na fina areia lavada pelo mar.
Os bares estavam claros e cheios de jovens animados por drogas ou álcool.
O dono do mais badalado era um deus nórdico e de uma cearense do interior que mais parecia um desenho infantil: uma caixa de fósforos como corpo, uma rodela achatada como cabeça e quatro palitos de fósforos como membros.
Aproximei-me do homem e perguntei:
- De onde você é?
- Do Ceará mesmo.
- De onde você veio?
- Daqui mesmo.
E agarrado a matuta horrorosa, não me respondeu mais.
Comemos, bebemos e cantamos até cinco horas da manhã, quando fomos tomar o farto café na padaria que funcionava apenas para esses desjejuns.
O resto do tempo ficava fechado.
Uma amiga convidou-me para conhecer o Beach Park, localizado na praia das Dunas, considerado o maior Parque aquático da América Latina. Fiquei orgulhosa e me deslumbrei com os seus gigantescos toboáguas.
Depois almoçamos peixes e camarões olhando o mar, sentindo a brisa que ameniza o calor da minha terra.
Conheci Morros Brancos, ricos em falésias coloridas, de onde é possível extrair doze cores de areia.
Os artistas fazem lindos desenhos com esse material colocado dentro de garrafas.
Juntei-me a um grupo turístico e parti para Canoa Quebra para conhecer uma colônia de nudismo.
Não cheguei até as pessoas nuas, mas, estive nas falésias que servem de mirantes naturais.
Tudo estava ali desde a minha infância, mas, só agora eu tinha visto a parte mais linda da minha terra.
Também passei a observar os jovens da nova geração de cearenses.
Altos, corpos bem feitos e cabeças civilizadas. E pensei: “É provável que sejam frutos de relacionamentos com os turistas estrangeiros ou sulistas que migraram para o nordeste”.
A terra do meu passado, assim como a minha infância, fora-se para sempre.
Agora maltrapilhos drogados ou bêbados abandonados, dormiam no chão substituindo os flagelados fugitivos do sertão seco, das plantações destruídas e dos animais mortos, pela falta de chuvas.
Entre perdas e ganhos, digo:
“Deus proteja os que mudaram a minha terra.”
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