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Comunidade dos Amantes da Literatura

De repente elas invadiram minha cozinha. Talvez tenham vindo dos esgotos do prédio, talvez da rua.
Não importa, mas logo que as vi declarei guerra. Comprei inseticidas de todas as marcas, tirei tudo dos armários, mudei os papéis que forravam prateleiras e gavetas e pensei: “pronto, matei todas, venci”.
Engano meu. Todas as noites quando ia fazer a última refeição ali estava a pequena e imortal baratinha.
Eu corria com o veneno e ela fugia.
No dia seguinte quando a empregada chegava, eu dizia: “tire todos os objetos desse armário e lave senão seremos intoxicados com tanto inseticida que coloquei.”
Outras vezes, quando Dulce, a doméstica, chegava, encontrava todos os armários vazios para que ela limpasse tudo, mudasse o forro e, finalmente, colocasse tudo para dentro.

Agora já ia até a cozinha para ver se o inseto obstinado continuava ali a me esperar para brincar de esconde-esconde comigo; ágil e ligeira, transformou-se num desafio. Decretei guerra.
Comprei um gel que me disseram infalível, novamente tirei tudo do armário e untei-o todo com o mortal veneno.
Quando pensava estar livre do inseto nojento, ele reaparecia.
A empregada andou falando baixinho, nas minhas costas, que eu estava caducando. Fingindo não compreender, continuei minha luta.
Agora tudo que Dulce pegava nos armários, eu dizia: “lave antes de usar senão seremos intoxicadas.”
Com o passar do tempo, a empregada já não achava engraçado sim cansativo, limpar, tirar e guardar tudo e, acabou pedindo demissão.
Sozinha, cheguei a pensar que, talvez estivesse ficando maluca e até cheguei a me perguntar se a pequena baratinha não seria uma alucinação.
Só eu a via e tirá-la do meu armário transformara-se numa guerra, numa obsessão na qual eu tinha que sair vitoriosa.
Muitas vezes, à noite, com desejos assassinos ia até a cozinha só para encontrá-la .
E quando saía procurava nas casas especializadas armas letais.
Usei variados inseticidas e diferentes tipos do gel matador.

Uma das vezes, ao abrir o armário, encontrei a baratinha distraída.
Cheia de ódio, tirei o sapato e atingi a inimiga.
E a morte instantânea chegou pelo método mais antigo e primário. Uma sapatada.

Uma noite, quando abri o armário, senti saudade dela e da Dulce.

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